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Crônica por Antiácido Corrosivo – A Chronicle by Corrosive Antiacid

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PORTUGUESE VERSION


Devia ser pelas nove horas da manhã quando ela chegou em meu escritório naquela sexta-feira toda esbaforida. Precisava de ajuda. Mas por que logo eu, que sempre fui da área de finanças, nunca havia presenciado nada assim?

Perguntei o que se passava com ela, mas até mesmo falar para ela era difícil. E, no processo de tentar me explicar ao mesmo tempo em que se sentia tão mal, desabou no chão.

Bem que eu podia ser da área de saúde. Socorrista, médico, enfermeiro, farmacêutico, psicólogo, terapeuta, educador físico OU até mesmo veterinário… Mas eu era um mero contador naquele momento (e por toda a minha vida)… Então fiz o que estava nas minhas mãos de fazer: ajudei-a, tentando erguê-la e sentá-la na minha poltrona e abaná-la com a agenda que ficava em cima da minha mesa. Era o que eu podia fazer.

Percebi que ela custava a acordar. Não sabia o que fazer, mas algo me compelia a olhar para a sua barriga. Então notei que ela se movia para cima e para baixo…

Estava respirando.

Pelo menos isso. Não queria ter que lidar com a polícia, caso ela morresse ali mesmo. Seria tido por todos como o maior bandido do mundo. Logo eu, que sempre fui educado nos mais fortes padrões de conduta pela minha família. Logo eu, que nunca tinha recebido visitas daquele jeito, ainda mais no início do expediente…

E então acordou. Sentia-se horrível. Demorou ainda um tempo para recobrar a consciência… Ofereci um chá para ela enquanto também fazia um para mim. Percebi que ela estava realmente melhor quando suas frágeis mãos conseguiram enfim forças para segurar a xícara uma de cada lado, levá-la ainda trêmula até a boca e dar enfim o primeiro gole.

Por algum momento nos entreolhávamos sem nada dizer um ao outro, até que, depois da terceira golada, ela começou a falar…

Contou-me a sua história de vida, bem movimentada por sinal para mim, que sempre fui acostumado com o ideal de uma estabilidade crucial (e mortal) de uma vida sem propósitos, mas com muitas responsabilidades e cansado de nada acontecer nela.

Logo eu, que sempre fui contra falar da minha vida para as pessoas, ainda mais para completos desconhecidos, estava estranhamente interessado naquela conversa e confortável com aquela mulher (quem poderia ser ela?). Então contei também a minha história para ela. Ela ouvia minhas ladainhas de uma vida reprimida e sem sentido com o mesmo interesse que eu escutava as suas lamúrias de uma vida libertina.

Compartilhamos nossas vidas um com o outro e reconhecíamos intimamente uma terrível similaridade entre as histórias, que nos tornava iguais: ambos odiávamos nossas vidas. E o que era apenas ajuda a uma estranha havia se tornado um encontro de amigões de longa data, até mesmo de infância.

Ela esteve comigo até o fim do expediente e até me ajudou em algumas tarefas do escritório. Depois passeamos um pouco pois ela não queria ter que voltar para a casa e ficar lá outra vez sozinha. E o engraçado é que já eu, por minha vez, sentia o mesmo.

Quando ficou tarde eu a levei em sua casa. Ela me convidou para entrar. No início recuei, pois já tinha sido união demais por um dia. Mas depois começou a chover e eu me vi obrigado a voltar, bater à porta dela e pedir guarida até a chuva passar. Entrei.

Conversamos bastante por muito tempo. Falávamos alto, bebíamos, fumávamos e ríamos bastante, com total satisfação, como já não fazíamos mais a décadas. Até que, por conta do vinho, ou por culpa de nossas próprias carências, nos entregamos em uma tórrida noite de amor. Nostra culpa. Maxima nostra culpa.

E então já não conseguíamos mais viver um sem o outro. Seguíamos apaixonados, vivendo o maior e melhor relacionamento de todas as nossas vidas enquanto brincávamos felizes como crianças, plenamente felizes enquanto tragávamos juntos lentamente o maravilhoso aroma do seu cigarro Vogue (era mesmo uma moça de classe apesar dos pesares), aproveitando tudo intensamente para que o momento nunca mais acabasse. Carpe diem et noctem, baby.

Depois que amanheceu, tomamos café-da-manhã juntos e daí cada um tomou um rumo diferente.

Passei o fim de semana todo sem conseguir esquecê-la. Mas achei estranho ela não ter me ligado, me atendido ou respondido minhas mensagens o sábado inteiro. Ainda ontem estávamos destinados a ficar juntos para sempre e agora ela não me atendia? Por que será que ela fez isso comigo? Talvez tenha decidido me esquecer, já que o seu estilo turbulento e promíscuo de vida não era para alguém como eu. Mas o destino havia me preparado algo muito pior para me ver de joelhos e rir da minha cara, quando no domingo eu descobri o por quê.

Logo eu, que nunca fui muito romântico, emotivo e nem acreditava mais em amor, caí de joelhos e berrei abaixando a cabeça. Não me contive ao ver seu nome e foto no jornal logo de manhã enterrada junto com um dos vasos de rosas que ela levou do meu escritório. Não conseguia mais parar de chorar. Não consegui fazer nada no domingo, nem dormir, nem comer nada.

Na segunda-feira, quando reabri meu escritório, sentia que aquilo já não me cabia mais. De um momento para outro da minha vida eu tinha tomado um soco da minha própria consciência e nada mais fazia sentido, além de viver em uma vida oca, cinza, fria, escrota e insípida… E logo eu, que sempre fui muito comedido, tive um acesso de fúria no qual destruí o meu escritório.

Foi quando, já cansado, ferido, rouco, louco e sem forças, eu me preparava para pôr um fim em minha vida e toda a frustração, quando me deparo com um papel que estava preso no vão da porta e eu não percebi quando entrei na minha sala… Normalmente eu jogaria fora, mas algo me impelia a abrir e ver o que era. Era a última carta dela (como sou idiota! Ela não sabia aonde ficava a minha casa).

Na carta ela me agradece por tudo o que fiz por ela, pede desculpas pelo ocorrido no dia em que nos conhecemos e que ela queria ter me conhecido em outra época, com mais tempo. Ela não me ligou por que estave muito cansada. Teve que passar o dia todo no médico fazendo baterias de exames, mas teve alta ainda naquele dia. Estava curada, graças ao nosso encontro.

Também contou que, assim como ela tinha levado meu vaso de rosas embora, ela também tinha um presente para mim: sua cachorrinha, chamada Betsy, que em suas últimas disposições ela quis que ficasse comigo, pois eu teria algo dela para não me sentir tão só. Ela afanou minha roseira para ter algo meu junto com ela no médico e ficaria com ela para sempre, como se fossem uma parte de mim com ela. E que eu fizesse o mesmo com a Betsy.

Mas por que ela partiu? Por que ela me deixou? Por que ela se foi? Por que ela morreu? Eu realmente não sei. Não deve ter aguentado a Felicidade, já que ela parecia tão bem em seu leito de morte, plenamente realizada. E mais uma vez, lágrimas corriam pelo meu rosto. Mas desta vez, de uma estranha pontícula de felicidade em meio a um colosso lodaçal de ira e sofrimento.

E então, em um estalar da minha consciência (um insight), eu saí do meu escritório correndo para o endereço dela. Quando eu cheguei lá e me identifiquei à família dela. Quando eu cheguei lá e me identifiquei à família dela, eles me receberam, me abraçaram, conversaram muito comigo e não me permitiram sair sem antes jantar com eles, afinal eu não havia comido nada o dia inteiro.

Por volta das vinte horas eu vim embora com a Betsy para a minha casa. Inicialmente ambos estávamos arredios, mas agora já nos achávamos adoráveis.

Como não conseguia mais dormir, saí para o bar. Só me lembro das seis e meia da manhã quando o dono me cutucou para ir embora, pois ele precisava fechar. Mas aquela foi a melhor noite dos últimos tempos, pois me proporcionou um encontro com a minha amada, ainda que apenas em sonho… Parecia tão bem e feliz. Me ajudou, me consolou, me acalmou, dizendo para eu também buscar a minha felicidade por que a vida ainda pode valer a pena. E ela aprendeu isso quando me conheceu, pois aquele foi o melhor dia da vida dela. E eu me sentia da mesma forma.

Logo eu, que sempre fui ateu, agora era um visionário profeta e um religioso convicto, pois no Vale das Sombras da Morte, percebi finalmente do que se trata a vida, tendo ali mesmo minhas primeiras lições de Espiritualidade. Eu passaria a crer naquilo que a vida pode me oferecer de melhor e estava profundamente interessado em Deus, na vida, na natureza, no universo e muito mais.

Todos os encontros e desencontros da vida eram uma coisa tão esplendorosa para mim que naquele dia não consegui nem ir para o escritório. Algo em mim me dizia outra coisa. Passei o dia andando a esmo, reflexivo, em profunda introspecção, às vezes parando para sentar, descansar um pouco e então prosseguir.

Quando cheguei em casa, Betsy me esperava com enorme euforia. Após toda a atenção que ela merecia, encostei no sofá para Televisão. Mas logo adormeci e dormi o melhor sono da minha vida, após dias sem dormir e comer. Profundo, sereno, despreocupado, revigorador, transformador.

Acordei estranhamente muitíssimo bem no dia seguinte. Caminhei com a Betsy e tomei um café bem forte e fervido para começar o dia. Eu estava pronto para colocar minha vida de volta nos trilhos. Mas algo dentro de mim havia mudado, transformado. Eu decidi mudar tudo. Recomeçar do zero. Cancelei todos os meus compromissos e seguia livre, rumo a algo novo.

O nome daquela mulher podia ser Esperança. E o meu também. Logo eu, que nunca acreditei em transformações, recomeços e propósitos, agora tinha minha própria missão neste mundo: agora eu seguiria a área da saúde. Afinal de contas, em apenas um dia eu havia sido socorrista, médico, enfermeiro, psicólogo, terapeuta, educador físico E até mesmo veterinário. Mas isso não era o bastante. Eu queria trabalhar com isso, eu queria espalhar isso pelo mundo e ajudar a levar a Transformação a todos diante de mim.

E logo eu, que nunca fui dado a muitas buscas e extravagâncias e deixar a vida correr solta, agora eu estava embriagado nas correntezas da vida. Fui aventureiro e chutei tudo para o alto. E, pela primeira vez na minha vida, vivia como se algo muito forte vivesse dentro de mim e fizesse sentido. Jamais teria imaginado o tamanho das aventuras e presentes que a vida guardava para mim naquele dia, se eu não tivesse aberto as portas para Ela e o encontro jamais tivesse acontecido.

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ENGLISH VERSION

It must have been around nine o’clock in the morning when she arrived at my office that Friday, all out of breath. She needed help. But all of me, who was always in the finance area, never witness anything like this?

I asked what was going on with her, but even talking to her was difficult. And in the process of trying to explain myself while feeling so bad, he collapsed on the floor.

I could be in the health field. First aid, doctor, nurse, pharmacist, psychologist, therapist, physical educator OR even a veterinarian… But I was a mere accountant at that time (and for all my life)… So I did what I was in the hands of doing: I helped her, trying to lift her up and sit her on my armchair and fan her with the diary that was on my desk. It was what I could do.

I realized that it was hard to wake up. I didn’t know what to do, but something compelled me to look at his belly. Then I noticed that it was moving up and down…

She was breathing.

At least that. I didn’t want to have to deal with the police if she died right there. It would be considered by everyone as the greatest bandit in the world. Soon I, who was always educated in the strongest standards of conduct by my family. Soon I, who had never received visitors like that, especially at the beginning of the day…

And then She woke up.

She felt horrible. It took me a while to regain consciousness… I offered her tea while also making one for me. I realized that she was really better when her fragile hands finally managed to hold the cup one on each side, bring it still trembling to the mouth and finally take the first sip.

For a moment we looked at each other without saying anything to each other, until, after the third hit, she started talking.

She told me her life story, which was very busy for me, that I was always used to the ideal of a crucial (and deadly) stability of a life without purpose, but with many responsibilities and tired of nothing happening in it.

All off me, who was always against talking about my life to people, even more to complete strangers, was strangely interested in that conversation and comfortable with that woman (who could she be?). So I also told her my story. She listened to my litanies of a repressed and meaningless life with the same interest as I heard her laments of a libertine life.

We shared our lives with each other and we intimately recognized a terrible similarity between the stories, which made us equal: we both hated our lives. And what was just helping a stranger had become a meeting of longtime friends, even childhood.

She was with me until the end of the day and even helped me with some office tasks. Then we went for a walk because she didn’t want to have to go back to the house and stay there alone again. And the funny thing is that I, in turn, felt the same way.

When it got late I took her to her house. She invited me in. At first I backed off, because it had been too much together for a day. But then it started to rain and I was forced to come back, knock on her door and ask for shelter until the rain passed. I entered.

We talked for a long time. We talked loudly, drank, smoked and laughed a lot, with total satisfaction, as we haven’t done for decades. Until, on account of wine, or because of our own needs, we indulged in a torrid night of love. Nostra culpa, maxima nostra culpa.

And then we could no longer live without each other. We were still in love, living the biggest and best relationship of all our lives while playing happily as children, fully happy as we slowly swallowed together the wonderful aroma of her Vogue cigarettes (she was really a classy girl despite her regrets), enjoying everything intensely so that the moment would never end. Carpe diem et noctem, baby.

After dawn, we had breakfast together and then each took a different course.

I spent the whole weekend unable to forget it. But I thought it was strange that she hadn’t called, answered or answered my messages all Saturday. Just yesterday we were destined to be together forever and now she didn’t answer me? Why did she do this to me? Perhaps She decided to forget me, since her turbulent and promiscuous lifestyle was not for someone like me. But fate had prepared me for something much worse to see me on my knees and laugh at my face, when on Sunday I found out why.

All off me, who was never very romantic, emotional and didn’t even believe in love anymore, fell on my knees and screamed and lowered my head. I couldn’t help but see her name and photo in the newspaper early in the morning buried along with one of the rose vases she took from my office. I couldn’t stop crying anymore. I was unable to do anything on Sunday, nor sleep, nor eat anything.

On Monday, when I reopened my office, I felt that it was no longer my job. From one moment to the next in my life I had taken a blow to my own conscience and nothing else made sense, other than living in a hollow, gray, cold, scruffy and tasteless life… And then I, who was always very restrained, had a tantrum in which I destroyed my office.

That was when, already tired, hurt, hoarse, crazy and without strength, I was preparing to put an end to my life and all the frustration, when I came across a paper that was stuck in the doorway and I didn’t realize when I entered the my office … I would normally throw it away, but something compelled me to open it and see what it was. It was her last letter (how stupid I am! She didn’t know where my house was).

In the letter she thanks me for everything I did for her, apologizes for what happened on the day we met and that she wanted to meet me at another time, with more time. She didn’t call me because she was so tired. He had to spend the whole day at the doctor doing battery tests, but he was discharged that day. I was healed, thanks to our meeting.

She also said that, just as she had taken off my vase of roses away, she also had a gift for me: her little dog, called Betsy, who in her last dispositions she wanted me to stay with, because I would have something of her to not feel so only. She stroked my rosebush to have something of mine with her at the doctor and would stay with her forever, as if they were a part of me with her. And that I do the same with Betsy.

But why did she go? Why did she leave me? Why did she passed out? Why did she die? I really do not know. She must not have endured Happiness, since she looked so well on her deathbed, fully realized. And again, tears were streaming down my face. But this time, from a strange point of happiness in the midst of a colossal bog of anger and suffering.

And then, in a snap of my conscience (an insight), I left my office running to her address. When I got there and identified myself with her family. When I got there and identified myself with her family, they welcomed me, hugged me, talked to me a lot and didn’t allow me to go out without having dinner with them, after all, I hadn’t eaten anything all day.

Around twenty o’clock I left with Betsy for my house. Initially we were both aloof, but now we thought we were adorable.

As I couldn’t sleep anymore, I went out to the bar. I only remember six-thirty in the morning when the owner nudged me to leave because he needed to close. But that was the best night of recent times, because it provided me with an encounter with my beloved, even if only in a dream… It seemed so good and happy. He helped me, comforted me, calmed me down, telling me to also seek my happiness because life can still be worthwhile. And she learned that when she met me, because that was the best day of her life. And I felt the same way.

Off all me, who was always an atheist, was now a visionary prophet and a convinced religious, because in the Valley of the Shadows of Death, I finally realized what life is all about, having my first lessons in Spirituality right there, right now. I would come to believe in what life can offer me best and I was deeply interested in God, in life, in nature, in the universe and much more.

All the encounters and misencounters in life were such a splendid thing for me that I couldn’t even go to the office that day. Something about me told me something else. I spent the day wandering, reflective, in deep introspection, sometimes stopping to sit, get some rest and then move on.

When I got home, Betsy was waiting for me with great euphoria. After all the attention she deserved, I leaned on the couch for television. But I soon fell asleep and slept the best sleep of my life, after days without sleeping and eating. Deep, serene, carefree, invigorating, transforming.

I woke up strangely awesome well the next day. I walked with Betsy and had a very strong and boiled coffee to start the day. I was ready to get my life back on track. But something inside me had changed, transformed. I decided to change everything. Start over from scratch. I canceled all my appointments and was on my way to something new.

That woman’s name was Hope. And mine too. Soon I, who never believed in transformations, new beginnings and purposes, now had my own mission in this world: now I would follow the health area. After all, in just one day I had been a rescuer, doctor, nurse, psychologist, therapist, physical educator AND even a veterinarian. But that was not enough. I wanted to work with it, I wanted to spread it around the world and help bring Transformation to everyone before me.

And off all me, who was never given to much searching and extravagance and letting life run wild, now I was drunk on the currents of life. I was adventurous and kicked everything up. And, for the first time in my life, I lived as if something very strong lived inside me and made sense. I would never have imagined the size of the adventures and gifts that life kept for me that day, if I hadn’t opened the doors for Her and the Gathering had never happened.

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